Saímos de manhãzinha do nosso hostel maravilhoso, despedimo-nos da recepcionista fantasma 24h/dia, e rumámos à estação de Milão. Próxima paragem: Veneza.
No metro encontrámos um suposto Pai Natal, um velhote querido com barbas enormes que a Carol adorou e nos disse "Good morning girls and boy", seguido dum "qualquer coisa... square" e uma piscadela de olho quando saímos da estação. A estação de comboios era muito arranjada, altíssima e toda em pedra clara trabalhada (recheada de posters da Disney).
Apanhámos o comboio e... puff demos finalmente início a um dia hilariante cujo nome devia ser "multiculturalidade".
Chegámos a Veneza a partir de Mestre e a paisagem era logo deslumbrante, porções enormes de água a rodear as ilhas, ao fundo, os pináculos das torres. Assim que descemos do comboio tivemos a certeza de que Veneza, quando foi construída, foi-o sem dúvida com a intenção de criar uma atracção turística inigualável. Que outra explicação dar? Quem iria construir uma cidade sobre pântanos? Por isso, quando saímos do comboio vimos as centenas e os milhares de turistas que se acumulavam na estação. Fomos deixar primeiro as malas no depósito de bagagens (a fila para lá assustou-nos um bocado, mas depois até foi relativamente rápido). Desta vez fui eu a dar o meu documento identificativo (o da Alexandra já tinha sido copiado em Como e era por isso agora a minha vez).
A saída da estação era deslumbrante, um enorme canal, recheado de turistas, prédios típicos de Veneza e aqu
ela atmosfera e sentimento de estarmos numa das cidades mais peculiares do Mundo.Como não tínhamos mapa, vimos um assim de relance na estação e deixámo-nos perder pelas ruelas, tentando nunca perder de vista as direcções "Per Rialto" ou "Piazza S. Marco".
A razão porque este dia se devia chamar multiculturalidade é pela natureza caricata dos turistas dos vários países. É estranho, mas os estereótipos que se criam são verdade absoluta para mais de 80% dos casos. Os turistas europeus dos países mais a norte são altos, loiros, sempre com brutos escaldões, calças caqui e chinelos com meias brancas. Os islamitas são facilmente reconhecidos pela típica estrutura familiar, o pai gordinho, a mãe e os filhos ou pelas malas enormes e luxuosas que muitas vezes trazem...Falaremos deste tema mais adiante porque há coisas que têm de ser contadas onde aconteceram.
Perdemo-nos várias vezes, mas cada rua era uma fotografia com contraste de água suja, os edifícios avermelhados, as flores nas janelas e os gondoleiros nos canais. Era magnífico.
Demoramo-nos um pouco demais. À medida que nos aproximávamos do centro apareciam cada vez mais pessoas e a beleza dos edifícios era esquecida pela fome que apertava e só queríamos por isso chegar à Praça de S. Marco e comer a bela pizza que sobrara de Milão.
Por fim, lá estava ela! Bela como eu me lembrava, mas foi uma pena ter tantas cosias em obras - parte da catedral, parte do palácio ducal, e ainda um palco para espectáculos no centro da Praça que cortava um pouco a vista.
Avançámos pelo m
eio da multidão e admirámos rapidamente os edifícios até nos sentarmos nas escadas do palácio ducal, entre dois cafés, a saborear a pizza.Constatámos no fim que era proibido sentar-se e comer nos degraus, mas tal como nós, milhares de pessoas o faziam.Terminámos a refeição e fomos ver melhor a catedral (Veneza devia estar particularmente pesada naquele dia porque a água saía dos esgotos e encheu a frente da catedral toda), observámos a ponte dos suspiros e pensámos "porque não andar de Gôndola?"
Fomos perguntar o preço a um grupo de gondoleiros que por ali se encontrava a conversar e tivemos a bela quantia de €120 por gôndola. Claro que não fomos! Tínhamos como limite €15 por pessoa! O mais engraçado foi termos recusado o passeio e logo a seguir vir outro gondoleiro oferecer €100. Também não. Não acreditámos que era possível, mas um 3º gondoleiro veio falar connosco! Desta vez oferecia €90, mas ainda era demais. Eu sugeri €10, mas ele não achou muita piada e virou costas. O que nos rimos!
Voltámos a sentar-nos na Praça de S. Marco, agora na parte de trás, a descansar mais um pouco e tivemos mais um aperitivo de multiculturalidade.Os turistas do extremo Oriente são frenéticos! Não sei se é pelo estilo de vida super disciplinado deles, mas parece que nunca conseguem relaxar. Apareceu um grupo, cheio de máquinas fotográficas, e repleto de interesse pelos pombos da praça. Perguntámo-nos se na Ásia eles não existiriam. O mais hilariante foi a guia ter chegado e separado o grupo em cerca de 5 grupos mais pequenos. Pareceu-nos ... que era para o passeio de gôndola. Depois de tanto trabalho a organizar os grupinhos, uma 2ª excursão de orientais aparece a dirigir-se para as gôndolas. As guias da 1ª excursão incitaram pelos seus turistas e começaram a correr para lá chegarem primeiro.
Claro que se desfizeram os grupinhos todos, claro que as 2 excursões se misturaram e claro que nos fartámos de rir!
A tarde foi passada à beira dos canais, a comer gelados (melão, limão e pistachio), óptimos por sinal.
Regressados à estação fomos buscar as malas (tudo direitinho) e ficámos nas escadas da estação a ver o entardecer.Embarcámos para Budapeste por volta das nove. E se achávamos que não íamos ver nenhum português estávamos muito enganados. Mas primeiro o comboio. Via-se logo que estávamos a ir para a Europa mais leste. O comboio era mais antigo, as cadeiras forradas com tecido exuberante, carpetes no tecto! (Sim!) e cadeiras não muito propícias para dormir.
Assim que nos sentámos, 3 cadeiras dum grupo de 4, surgiram 2 portugueses de Lisboa, meio perdidos porque não tinham feito reserva e tinham-lhes dito que o comboio estava cheio. Eles lá arriscaram e só tiveram que pagar depois a reserva, ficaram foi em pé até Ljubljana, onde saíram. Foi também aqui que saiu outro grupo de portugueses, em que uma das raparigas conhecia o Rui da nossa faculdade, o Mundo é mesmo muito pequeno! Também em Ljubljana entrou um 3º grupo de portugueses do Norte que iam também para Budapeste.
A viagem foi cheia de peripécias:- turistas húngaros abismados com o facto de a Alexandra estar a comer atum no comboio
- rapazes de interrail a cozinhar massa na casa de banho
- grupo de espanhóis que falava super alto
- o mafioso italiano que estava sentado mesmo ao lado da Alexandra
- a quantidade de vezes que nos pediram os passaportes quando passávamos a fronteira Itália - Eslovénia - Croácia - Hungria.
Havia uma estranheza no ar. A língua era diferente, as pessoas eram diferentes,... Estávamos sem dúvida a rumar para leste, para o ponto mais longe de Lisboa em que iríamos estar. Novo dia, novo país, nova cultura.
